A inexistência da privacidade em "Citizenfour"

Fonte: Google Imagens

Para muitos, pensar nos conceitos de cyber vigilância, perda da privacidade e sociedade do controle, figura algo limitante às ficções científicas. O marco da sétima arte o filme Matrix (1999), dirigido pelas irmãs Lana e Lilly Wachowski, por sua vez, retrata um cenário futurístico muito condizente com o momento atual — onde o ideário de privacidade nos meios digitais é algo improvável e que interfere drasticamente nas relações individuais e sociais.

O longa Citizenfour, lançado em 2014, de Laura Poitras, reforça a proposta do filme lançado no fim do século XX, ao contar a história de Edward Snowden, ex-funcionário da Agência Nacional de Segurança (NSA), que decide divulgar arquivos que comprovam um esquema de espionagem mundial realizado pela agência. Poitras traz um obra densa, claustrofóbica e incisiva em torno de um tema de interesse mundial. Citizenfour ganhou as graças da crítica e recebeu inúmeros prêmios — como o Oscar de melhor documentário de longa-metragem em 2015.

A obra tem início com um breve esclarecimento da cineasta, documentarista e escritora estadunidense Poitras, onde explica que a película faz parte de uma trilogia sobre os Estados Unidos após o 11 de setembro, incluindo os filmes: My Country, de 2006, que trata a guerra no Iraque e The Oath (2010) referente ao presídio Guantánamo e a guerra contra o terror. A cineasta também esclarece que, em 2006 foi submetida à inúmeras interrogações e prisões nas fronteiras dos EUA — o que evidencia que seu objetivo de denúncia em seus projetos audiovisuais, a tornam alvo de represálias e violências contra a liberdade, direitos humanos e democracia, de modo geral.

O enredo, ambientado inicialmente através de interações virtuais, vai obtendo aos poucos diversos recortes e diferentes linguagens, entre elas: e-mails criptografados, recebidos pela documentarista, do remetente que dá título ao filme, o fornecimento e esclarecimento sobre os dados divulgados pelo ex-administrador da Agência Nacional de Inteligência (CIA) e ex-contratado da NSA, Edward Snowden para o jornalista norte-americano do The Guardian, Glenn Greenwald, além de falas de outros especialistas no tema, como o cripto-matemático da NSA, William Binney e outros.

Por meio destas compilações de linguagens dispostas em ordem gradual, que permite o longa possuir um forte cunho instrucional, é possível compreender como se iniciou a comunicação entre Laura, Greenwald e Snowden, e como isso se materializou em Hong Kong no ano de 2013, além das sucessíveis consequências que os desdobramentos das pesquisas e divulgações iniciais dos dados acarretam na vida dos envolvidos.

Snowden, em especial, desde o início já demonstrava ter em mente as implicações de suas ações. Contudo com as respostas da mídia, sociedade e governo, quantos ao vazamento de informações por ele perpetuado para desmascarar o sistema de vigilância mundial estabelecido pela NSA, dos Estados Unidos, se vê temeroso quanto ao seu futuro e de sua família.

Conceitos como democracia, direitos humanos, liberdade de expressão e privacidade se tornam recorrentes no decorrer das cenas. Afinal, o que se vê são elucidações de ações e métodos de espionagens que não possuem nenhum fundamento concreto — exceto justificativas enfadonhas ligadas a atentados terroristas ocorridos e futuramente possíveis que não validam o acesso e exposição de dados de pessoas do mundo inteiro.

Em Citizenfour, Poitras faz um registro de um momento que deixou o mundo em choque, ao compreender que com a popularização da internet e as diversas possibilidades presentes no meio digital, inúmeras empresas e/ou organizações encontraram nessas ferramentas uma forma de perpassar as linhas geográficas entre os países, dos campos individuais e até mesmo do que é visto como invisível.

Através do filme, o espectador terá uma experiência similar a de assistir uma ficção científica com requintes de terror, e poderá se sentir mais amedrontado ao perceber que tudo o que foi visto faz parte da realidade política, econômica e social da atualidade. E que, consequentemente, ninguém mais tem acesso ao direito básico do cidadão, isto é, a privacidade.

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