As Duas Guerras Vlado Herzog: um livro que vai além do Nazismo e das sombras da Ditadura Militar

Em tempos que vivemos um onda de protestos nos Estados Unidos pela morte de George Floyd, um homem negro que foi asfixiado por um policial branco e depois morreu em  Minneapolis. Enquanto no Brasil,  um grupo de supremacista da extrema-direito fez um protesto em frente ao Palácio do Planalto com uma evidente referência à Ku Klux Klan (organização terrorista que surgiu nos Estados Unidos, no século XIX, e ficou marcada por perseguir, espancar e assassinar negros libertos e pessoas que defendiam os direitos civis para os afro-americanos).

Audálio Dantas ficou nacionalmente conhecido pelo seu faro jornalístico apurado. Repórter e escritor dos principais veículos de comunicação do país, o jornalista aborda no livro a vida do jornalista brasileiro Vladimir Herzog. Passando por sua infância conturbada durante a perseguição nazista à morte sob tortura durante a Ditadura Militar no Brasil, Vlado foi um dos principais nomes no meio jornalístico na luta contra a opressão e censura impostas pelo regime militar no país. 


Título: As Duas Guerras de Vlado Herzog
Autor: Audálio Dantas
Páginas: 405
Editora: Civilização Brasileira

O Brasil vive um momento sombrio em torno do seu âmbito político, o povo brasileiro sempre carregará consigo as cicatrizes deixadas pelos 20 anos da Ditadura Militar. No ano de 2013, o livro de Audálio Dantas, foi vencedor do Prêmio Jabuti como Melhor Livro de Não Ficção, a obra nos remete a vida pessoal e profissional do jornalista morto pela ditadura Vladimir Herzog. 

O livro foi desenvolvido no formato de grande reportagem, baseando-se em depoimentos, arquivos e relembrando suas próprias memórias, Audálio relata os tempos sombrios nos porões do DOI-CODI (órgão subordinado ao Exército, de inteligência e repressão do governo brasileiro durante o regime inaugurado com o golpe militar de 1964.) 

"Repórteres, meu senhor, são pessoas que perguntam - esta é uma definição quase perfeita de repórter. Não está em nenhum manual de redação, nem em qualquer dessas alentadas teses de doutorado em jornalismo."

Vlado veio para o Brasil ainda criança, sua família fugia da perseguição nazista ocorrida na Alemanha durante a II Guerra Mundial. A família de Vlado recorreu a cultura brasileira buscando encontrar refúgio, no entanto, o país se encontrava em um regime de recessão política. Na época da Ditadura Militar, o jornalista era editor-chefe da TV Cultura, um dos poucos veículos que tentava fazer um jornalismo sem censura. Dois agentes do II Exército convocaram Vlado para prestar depoimento sobre as ligações que ele mantinha com o Partido Comunista Brasileiro, que atuava na ilegalidade durante o regime militar.

A prisão de Vlado foi uma entre dezenas de detenções determinadas pela Operação Jacarta, conduzida pelo DOI-CODI com a intenção de destruir bases do Partido Comunista em órgãos de imprensa, o jornalista compareceu espontaneamente ao prédio do DOI-CODI, lá ficou preso com mais dois: George Duque Estrada e Rodolfo Konder. Em seu depoimento, Vlado negou qualquer ligação com o PCB, ele foi torturado até a morte por uma máquina de choques elétricos, na época, a versão oficial, apresentada pelos militares, foi a de que Vladimir Herzog teria se enforcado com um cinto, e até uma foto do jornalista morto na cela do DOI-CODI chegou a ser divulgada. Posteriormente, o autor da foto, Silvaldo Leung Vieira confessou a verdade sobre o falso “suicídio” e que a imagem foi mais uma mentira contada pelos militares durante a ditadura.


"Reviver aqueles dias significava quase uma sessão prolongada de psicanálise... Mas o fato é que desde o início minha motivação para escrevê-lo era mostrar a intensidade da tensão que se passou durante aqueles dias que precederam e sucederam o assassinato do Vlado Herzog.”

Com uma linguagem honesta e sem desmitificar os reais demônios do regime militar, a obra é escrita com uma extrema honestidade a cerca dos fatos que sucederam a vida e a morte de Vladimir Herzog. O livro tem uma narrativa agradável, porém, às vezes a escrita se torna uma pouco cansativa por conter tantos detalhes, mas torna-se uma leitura fundamental para todos aqueles que queiram entender um pouco mais sobre a Ditadura Militar no Brasil e a censura que foi imposta aos grandes veículos de comunicação.

A Comissão da Verdade, um colegiado instituído pelo governo do Brasil para investigar as graves violações de direitos humanos ocorridas durante o regime militar, sofre com as sanções impostas pelo governo de Jair Bolsonaro, a obra tem uma grande importância histórica para o jornalismo brasileiro que ainda carrega consigo as lacunas daquele triste país dos anos 70.

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