Misto-Quente: Um livro, nada infantil, sobre a infância de Bukowski


Com a intenção de começar a me aventurar na tão polêmica escrita de Charles Bukowski, resolvi fazer a leitura de Misto-Quente, seu quarto romance publicado. Vários fãs antigos do escritor vieram me indicar começar a leitura por este livro, que foi publicado inicialmente em 1982 e conta com acontecimetnos da infância e a adolescência de Henry Chinaski. Vale lembrar que Henry nada mais é que um alter ego do próprio Bukowski, trazendo uma abordagem bem autobiográfica em sua obra. Sendo assim, nada mais justo que começar a aprofundar no trabalho de um autor buscando entender como foi seu desenvolvimento, pelas coisas que passou e acontecimentos que marcaram o começo de sua vida. 


Título: Misto-Quente
Autor: Charles Bukowski
Páginas: 320
Editora: L&PM

Para Henry Chinaski -protagonista desta obra-, o que pode ser pior do que crescer nos Estados Unidos da recessão pós-1929 é ser pobre, de origem alemã, ter muitas espinhas, um pai autoritário beirando a psicopatia, uma mãe passiva e ignorante, nenhuma namorada e, pela frente, apenas a perspectiva de servir de mão de obra barata em um mundo cada vez menos propício às pessoas sensíveis e problemáticas.


Assim como Bukowski, o personagem principal que vamos acompanhar nessa história chegou nos Estados Unidos por volta da década de 1920, vindo da Alemanha ainda com poucos anos de vida. No entanto, a história em Misto-Quente começa a ser contada mesmo por volta de 1930, no período pré Segunda Guerra Mundial em que todo o mundo vivia uma terrível crise econômica que afetou inclusive os pais de Henry. Durante todo o livro percebemos como o ambiente familiar do personagem era complicado e como isso afetou bastante em sua personalidade. Tendo que lidar com um pai altamente autoritário e agressivo e com sua mãe submissa a tudo isso, Henry acaba se tornando um jovem rebelde com a vida. Vamos acompanhar a dificuldade de Henry na escola, em fazer amigos, a lidar com sua própria aparência e também com sua puberdade. 

A temática do livro logo me agradou, já que sou bem fã de outros livros que possuem uma abordagem parecida, como As vantagens de ser invisível de Stephen Chbosky e também o clássico O apanhador no campo de centeio que já falamos sobre aqui no blog. Apesar dos inúmeros palavrões utilizados durante a história, a linguagem de Bukowski é simples e fluida, fazendo com que a leitura seja rápida e sem muitos problemas. Muitos o criticam por utilizar termos realmente pesados, mas creio que isso diz muito sobre os personagens e traz um aspecto de oralidade para escrita que muito me agrada.

Ele se levantou e se afastou, acompanhado pelas garotas. Fechei meus olhos e fiquei escutando as ondas. Milhares de peixes mar adentro, devorando uns aos outros. Infinitas bocas e infinitos cus, engolindo e cagando. A Terra inteira não era nada além de bocas e cus engolindo e cagando e fodendo. (página 207)

Sem dúvida alguma o ponto mais positivo do livro é o humor. Não sei se funciona com todos que leem Misto-Quente, mas definitivamente as sacadas de ironias e principalmente certos comentários feitos por Henry me fizeram rir alto durante a leitura. Em contraponto, o que me incomodou durante a leitura foi algumas cenas bem específicas que me peguei pensando "nossa, isso nunca aconteceria na vida real". Mas em uma vida tão conturbada como a de Bukowski/Henry, não se pode duvidar de nada né?

Por fim, creio que o livro é um excelente romance de formação que funciona muito bem para quem realmente quer conhecer não somente a escrita de Charles Bukowski, mas também um pouco de sua vida. O livro acaba no início da Segunda Guerra Mundial, mas podemos continuar acompanhando a história do personagem, cronologicamente, no livro Factótum de 1975 (sim, ele foi publicado antes de Misto-Quente). Por sinal, quero continuar me aprofundando nessa história e futuramente venho contar para vocês minhas impressões.

No verso do livro encontramos uma frase que diz muito sobre a obra e sua importância: "Quem não leu Misto-Quente, não leu Bukowski".

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