Enem 2020: a importância de falarmos sobre isso sob um ponto de vista cultural


É correto cobrarmos dos alunos da rede pública o mesmo ensino que cobramos dos alunos da rede privada?


Na próxima segunda-feira, dia 11/05, serão abertas as inscrições para o Enem 2020. Recentemente o MEC soltou uma peça publicitária que traz a seguinte mensagem "O Brasil não pode parar" e pede para estudantes estudarem de qualquer lugar e de diferentes formas. Tal campanha recebeu uma enxurrada de críticas sobre a manutenção do calendário do Enem 2020 no atual contexto da pandemia de covid-19. O ministro da Educação, Abraham Weintraub, afirmou que o objetivo do Enem é selecionar as pessoas mais qualificadas e mais inteligentes. Uma pesquisa divulgada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br) em 2019, aponta que 58% dos domicílios no Brasil não têm acesso a computadores e 33% não dispõem de internet.

Os dados ainda revelam que, nas áreas rurais, nem mesmo as escolas têm acesso à rede mundial de computadores: 43% delas afirmavam que o problema é a falta de infraestrutura para o sinal chegar aos locais mais remotos. Diversos países estão se adequando aos termos do isolamento social, as instituições de ensino adotaram medidas para os alunos continuarem tendo aula através do modelo EAD (Educação à Distância). A Secretaria Estadual de Educação disponibilizou no dia 04 de Abril o aplicativo que vai ser usado pelos alunos da rede estadual de educação para acompanhar as aulas a distância, que começaram no dia 22 de abril.

Site do Enem — Foto: Reprodução site do Enem

Devido aos problemas causados pela pandemia do coronavírus, é inadmissível que o governo não adie o prazo da prova diante das inúmeras dificuldades que os estudantes de baixa renda vem enfrentando. Cristiani Versiani, é professora da rede pública no Colégio Estadual Mauricio Antunes Ferraz e também atua como docente na instituição privada do Colégio Viva Vida, ela relata as condições que os seus alunos da rede pública vivem e como isso está se refletindo com o Covid-19. "Eu trabalho com esses alunos e são pessoas que moram na periferia, o ministro da Educação falou que os alunos devem correr atrás, mas antes ele deveria ir a fundo e se perguntar: eles vão correr atrás do que?"

O Enem é a principal prova para o ingresso no ensino superior, seja para conseguir uma vaga na rede privada através do ProUni (Programa Universidade Para Todos) ou concorrer a uma vaga nas universidade federais pelo Sisu (Sistema de Seleção Unificada). No atual cenário mundial, é impossível querer cobrar dos alunos da rede pública um rendimento escolar similar aos dos estudantes que têm acesso à rede privada. Nem sempre uma boa estatística é o suficiente para esclarecer um bom panorama da realidade, no Brasil, os desafios socioeconômicos está diretamente relacionado à desigualdade de oportunidades de aprendizagem e de acesso ao ambiente escolar. 

Esse fato não pode ser explicado simplesmente pela constatação da ausência de vontade dos alunos da rede pública em não verem as aulas, além de que deve-se questionar o porque um governo nacional cobra isso dos jovens, sendo que nem fornece os meios necessários para tal cobrança. Cristiani aborda como está sendo a adesão dos alunos da rede privada a este novo modelo de educação através dos meios digitais. "Em relação aos vestibulares é bastante confuso, como eu conheço as duas partes, eu não posso querer que um aluno do particular tenha a mesma nota do que um aluno da rede pública, não por questão de capacidade, mas na escola particular eu tenho 100% de adesão. Eles participam, tiram dúvidas, eles tem as ferramentas em mãos (computadores, celulares, tablet etc), os alunos do Estado tem apenas os livros didáticos, mas eles não conseguem aprender sozinhos."

As escolas públicas estão preparadas para o ensino à distância? 

A professora ainda relata que a escola estadual disponibilizou a plataforma Classroom e Teams e os professores criaram um manual explicativo detalhando os processos que devem ser seguidos para ter acesso as plataformas, no entanto, muitos ainda não conseguiram dar continuidade aos estudos justamente por não terem os meios necessários. Olhando a realidade educacional do nosso país, ainda é justo que possamos cobrar tanto dos alunos da rede pública? Alunos da rede privada tem aulas de informática e robótica desde o fundamental, enquanto os estudantes do ensino público muitas vezes dependem que o próprio professor leve seu notebook pessoal para explicar termos da área tecnológica - uma pesquisa feita pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br) afirma que há laboratórios de informática em 81% das escolas públicas, mas somente 59% são usados, o número de máquinas não conseguem suprir a alta demanda de alunos matriculados. 

Os professores da rede pública receberam orientações através de lives com o Secretário da Educação, Rossieli Soares, e com o CMSP (Centro de Mídias da Educação de São Paulo). Porém, a realidade educacional do Brasil também é refletida no cotidiano dos professores. Na escola pública em que Cristiani trabalha muitos docentes não tem um especialista disponível para ajudá-los no conteúdo didático que estão sendo fornecidos pelos meios digitais. Em um país que a profissão do magistério é tão desvalorizada, é importante ressaltar a assistência e o comprometimento que os professores estão tendo com todos os estudantes durante esse período de pandemia, a atual crise revela a precaridade do ensino público e deixa explícito os resultado de décadas de sub-investimento.

Com a suspensão das aulas em todo o território nacional, a aposta no Ensino à Distância no contexto da epidemia é vista com cautela por alguns dirigentes municipais. É importante incentivar esses estudantes darem continuidade aos estudos, porém, se faz necessário fornecer subsídios para que tal ato possa ser cobrado. Cristiani diz que apenas cerca de 20% dos seus alunos da rede pública estão conseguindo ter acesso ao conteúdo disponibilizado, antes de cobrar dos alunos uma postura mais digna perante os estudos é amplamente necessário nos voltarmos para o contexto sócio-econômico do país.

A disputa por uma vaga em uma universidade pública é igualitária para todos?  

Milhões de estudantes estão se preparando para a época de vestibulares, boa parte dos alunos da rede privada já tem acesso aos conteúdos didáticos desde o dia 20 de Março, enquanto os estudantes da rede pública - quase dois meses depois do decreto de isolamento social - nem mesmo conseguem se situar sobre o que devem estudar. É correto culpar os pais? É correto culpar os professores? Porque de fato não pensamos em culpar o atual governo, que de longe não se interessa em investir em políticas públicas no meio educacional. Não podemos exigir um nível de desempenho igual ou superior dos estudantes da rede pública, a fase de vestibulares é complicada e todos nós já passamos por isso, mas em nenhum momento enfrentamos uma pandemia que afetou todo o globo. 

Os processos seletivos de acesso à universidade, visto sob uma lógica econômica e competitiva, colocam em pauta a falta de investimento no ensino público. Alunos das escolas particulares já estão começando a ter simulados de preparação para o Enem, FUVEST e outros vestibulares, mas e quem não tem acesso ou dinheiro para pagar um ensino privado?  É evidente que continua sendo vedado à população de baixa renda a entrada nas graduações de maior prestígio e qualidade. Precisamos falar de Educação inclusiva e precisamos ainda mais mostrar para esses jovens que o lugar deles é dentro das universidade e que governo nenhum vai paralisar essa luta.

Por fim, a professora Cristiani Versiani ressalta a importância dos alunos se ajudarem neste momento e como os professores estão sendo um elo crucial para esses estudantes não desistirem desse sonho. A universidade é um direito de todos e lutar por um sistema educacional de qualidade é inclusive uma luta de todos. Certa vez li em um comentário no twitter que inteligência é pegar um discurso acadêmico e transformar em algo acessível e compreensível para todas as classes e idades, se você não faz isso ou só fala de forma pomposa, o seu diploma é a mesma coisa que nada. Não serve, não devolve ao mundo. Então me diz aí, o que você está fazendo para que jovens como você não deixem de acreditar que a universidade também é o lugar deles? 

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