Salinger e a representação da juventude delinquente em "O apanhador no campo de centeio"



Uma vez perguntado sobre o significado do seu nome artístico, J.D. Salinger, ainda antes da fama, respondeu: juvenil delinquente. Hoje, podemos notar que isso diz muito sobre sua principal e mais reconhecida obra "O apanhador no campo de centeio", que narra acontecimentos de um fim de semana de Holden Caulfield, jovem de 17 anos que foi expulso do seu colégio e resolveu vagar por Nova Iorque antes de voltar para casa de seus pais.

No entanto, antes de falarmos sobre o livro que moldou toda uma geração e foi um marco não só para literatura norte-americana (mas também para a mundial), precisamos conhecer um pouco sobre o autor e como ele se tornou um dos principais enigmas da história da literatura.

Jerome David Salinger nasceu em 1991 em Nova Iorque e desde bem novo já escrevia contos e submetia-os aos jornais locais. Sua maior ambição, sem dúvidas, era ser publicado pelo The New Yorker - mas foi rejeitado por muito tempo. Durante a Segunda Guerra Mundial, Salinger foi um soldado que esteve em campo de batalha, inclusive participou do Dia D e viu vários companheiros serem mortos pelas trucidades que aconteciam nas guerras. Como válvula de escape, no entanto, o autor esteve escrevendo durante todo esse período e foi assim que criou a maior parte da história de Holden Caulfield, seu personagem mais famoso até hoje. Posteriormente, com a publicação de sua primeira novela "O apanhador no campo de centeio", Salinger conseguiu uma legião de fãs e consequentemente estava sempre sendo perseguido por jornalistas e fãs. Talvez esse tenha sido o principal motivo para que, até o fim de sua vida, o escritor se mantivessse em refúgio em uma casa afastada da cidade e de todo o movimento literário.

Pouco se sabe e muito se especula sobre como foram os últimos anos de J.D. Salinger. O autor morreu aos 91 anos mas, segundo um documentário biográfico lançado em 2013, ele deixou um grande número de material escrito e pronto para ser publicado postumamente. Além desse documentário, também foi produzido um longa em 2017, O rebelde no campo de centeio, estrelado por Nicholas Hout e Kevin Spacey. No filme somos apresentados a fatos biográficos da vida de Salinger e também aos bastidores de como foi a produção e o processo de publicação do seu clássico "O apanhador no campo de centeio". Acho essas duas produções essenciais para quem tem interesse em se aprofundar mais na misteriosa vida de um dos escritores mais importantes da literatura norte-americana.


Falando mais especificamente da obra em si, O apanhador no campo de centeio foi originalmente publicado em 1951, vendeu mais de 68 milhões de cópias e inspirou grandes nomes como Bill Gates, Bret Easton Ellis e Stephen Chbosky. O livro é narrado em primeira pessoa, por um jovem de 17 anos que resolve passar um fim de semana vagando pela cidade de Nova Iorque. O grande diferencial do livro para época foi que J.D. Salinger realmente usou o mesmo tipo de linguagem falada pelos jovens, com todos os palavrões, sarcasmo e pensamentos rebeldes. Dessa forma, como nunca antes, a juventude de sentiu representada em um livro, fazendo com que a obra fosse tão aclamada até os dias de hoje.

Um ponto interessante é que Salinger colocou muito de si em seu protagonista, fazendo com que o livro tivesse um tom quase biográfico em algumas partes. Por exemplo, Holden Caulfield é um jovem que odeia cinema, acha entediante e não consegue entender como as pessoas ficam tão fissuradas nisso. Trazendo para vida real, J.D. Salinger rejeitou vender os direitos autorais de sua obra para que fosse criada uma adaptação cinematográfica, por maior que fosse a quantidade de dinheiro oferecido pelas produtoras. Será que ele realmente não gostava de cinema ou só tinha medo de estragarem a sua história?

Em uma das cenas mais marcantes do livro, Holden procura entender para onde vão os patos durante o inverno, quando o lago está completamente congelado. Como essa pergunta fica em sua cabeça por muito tempo, ele resolve perguntar a outras pessoas para tentar obter alguma resposta. Resultado: ninguém o leva a sério. No entanto, para mim, essa é uma das passagens que mais representa o livro e o personagem em si. O lago congelado é a vida de Holden que está dando tudo errado, ele acabou de ser expulso de mais um colégio, não sabe o que fazer da vida e qual rumo tomar. O pato é o próprio Holden. Percebe-se, portanto, que O apanhador no campo de centeio é repleto de profundidade, e uma leitura rasa não fará com que você aproveite nem 10% de tudo que o autor pretende passar. Nada é tão objetivo, por mais que pareça.

O apanhador no campo de centeio é um livro de leitura fácil e rápida, porém que demanda uma grande atenção e interpretação nas ações e pensamentos do personagem. É aquele tipo de livro que não acaba quando termina, e Holden parece continuar vivendo dentro de você, excitanto o lado rebelde de um jovem que ainda vive dentro de nós. É uma das minhas leituras preferidas da vida!

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