19 fevereiro 2019

"O Cortiço" de Aluísio Azevedo e sua importância para o movimento naturalista



No último mês, começamos aqui no blog um projeto de leitura de clássicos da literatura brasileira. Você pode acessar esse post e acompanhar todo o cronograma, vendo qual livro está programado para cada mês de 2019. Dessa forma, em janeiro tive a oportunidade de me aprofundar na obra de Aluísio Azevedo, autor naturalista responsável pelo incrível e memorável O Cortiço. Sendo assim, segue minhas impressões sobre a leitura e algumas informações importantes sobre o movimento literário que o livro representa.

Escrito pelo nordestino Aluísio de Azevedo e publicado em 1890, O Cortiço é um livro que irá contar sobre a vida das pessoas que viviam nessa moradia coletiva, que era muito comum no século XIX. Aluísio descreve o cortiço com certa humanização fazendo com que ele seja o real protagonista de sua obra. 

"Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas. Um acordar alegre e farto de quem dormiu de uma assentada, sete horas de chumbo." (página 28)

Porém, ainda assim somos apresentados a diversos personagens que tem sua importância na construção da narrativa. Como por exemplo João Romão, o vendeiro e proprietário responsável pelo surgimento do cortiço; Rita Baiana que, com sua doçura e vibração, bastava chegar para animar todo o local; Jerônimo que irá passar por problemas matrimoniais. Acompanhamos ainda várias outras histórias paralelas, algumas interessantíssimas e outras pouco desenvolvidas mas que não convém citar em meu texto pois se trata de uma análise crítica e não de um resumo do livro. 

O naturalismo brasileiro é considerado uma extensão do realismo pois, mesmo acontecendo ambos concomitantemente, há certas peculiaridades que os diferenciam, como por exemplo a exacerbação dos defeitos e pontos negativos presentes no cotidiano. Além do mais, os autores naturalistas se baseavam em ideais deterministas, ou seja, acreditavam que o indivíduo era fruto do meio o qual ele era inserido. Tal perspectiva é totalmente encaixada durante o enredo da obra de Azevedo, já que o viver no cortiço fazia com que as pessoas se transformassem completamente (podemos até citar o caso do personagem Jerônimo, que era um homem totalmente diferente antes de se mudar para aquele local).


Procurando me envolver mais com a história e ir além do livro, assisti o longa de 1978 dirigido pelo Francisco Ramalho Jr que possui o mesmo nome: O Cortiço. Apesar de apresentar muita semelhança no desenvolver da história, o filme não me agradou muito e preferia ter ficado apenas com a leitura do livro mesmo. No entanto, não posso ser injusto: Betty Faria está divinamente perfeita no papel de Rita Baiana, uma das personagens mais marcantes da trama.

O Cortiço não é importante somente por ser o principal representante do naturalismo, mas também por abordar assuntos que a literatura da época preferia fechar os olhos. Por exemplo, a presença de personagens LGBT não era uma coisa comum em publicações do século XIX. Além disso, podemos adentrar em discussões sobre a vida de uma classe social marginalizada, assuntos abolicionistas e tem até corno sendo representado (aquele que levou chifre de sua esposa hahaha). Em suma, é um livro que precisa urgentemente sair desse estigma de que todo clássico é chato e de difícil leitura, pois O Cortiço se prova totalmente divertido, interessante, realista e necessário.

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